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A ascensão lenta e constante das mulheres camionistas

Publicado a 1 de setembro de 2021 - 6 minuto(s) de leitura

O mundo da camionagem pertence aos homens. Será mesmo? Conversámos com duas mulheres camionistas sobre o seu trabalho, experiências… e esperanças para o futuro. 

 

Ouça o nosso podcast:

Sandrine Son is a French truck driver from Clermont-Ferrand in France – Michelin for my Business.

 

Historicamente, muitas profissões foram sempre dominadas pelos homens e a condução de camiões é, por certo, uma dessas profissões. Porém, nos últimos anos, o número de mulheres que pegam no volante tem vindo a crescer. O que é que explica esta evolução? Será o resultado (eliminei “natural”) das mudanças que ocorrem na sociedade? Será porque as mulheres camionistas têm mais exposição mediática ou, eventualmente, por causa da sua presença nas redes sociais? Mas, apesar destas mudanças, será que os preconceitos de género dificultam ainda a vida dessas mulheres? Por isso, vamos fazer estas perguntas a quem está mais apto a responder...

O chamamento da estrada livre

 “O mundo da camionagem foi-me apresentado pelo meu namorado quanto tinha 19 anos e, desde então, fiquei fascinada.” Conheça Oti Cabadas, também conhecida por Coco Trucker*, uma condutora de camiões oriunda de Palencia. Passa as suas semanas a atravessar a Espanha e, por vezes, Portugal, a transportar cerveja na maioria das vezes. “Do que mais gosto é a sensação de liberdade. Claro que é uma liberdade relativa, porque é sempre necessário cumprir um horário. Porém, temos sempre a oportunidade de escolher onde parar e definir os nossos itinerários. Sou muito independente e gosto disso.”

“Eu também. Gosto do meu trabalho porque me sinto livre na estrada. Por vezes, até parece que nem estou a trabalhar”, concorda Sandrine Son**, uma camionista francesa de Clermont-Ferrand, que sente também o chamamento da estrada livre. “Cresci inserida no mundo da mecânica: o meu pai era inspetor técnico de uma empresa de autocarros e, por isso, tive sempre a ideia de que um dia iria trabalhar na estrada. Além disso, como gosto da sensação de liberdade enquanto conduzo, optei por trabalhar na maior parte do tempo à noite a fazer entregas aos supermercados com o meu camião frigorífico. À noite, estamos sozinhos na estrada, não há engarrafamentos, nem problemas de estacionamento. Posso fazer o que quero sem que ninguém me incomode.”


Ainda há poucas mulheres nesta área

Pondo de parte essa sensação inebriante de liberdade, existem obstáculos específicos para as mulheres conduzirem camiões em 2021? De facto, não, comenta a Sandrine: “Nos últimos anos, as coisas mudaram, principalmente na forma como os nossos colegas homens nos encaram. Por vezes, ficam a olhar para mim, surpreendidos, mas não me menosprezam. De uma forma geral, recebo mais incentivos do que comportamentos arrogantes. Claro que ainda há algum chauvinismo machista, mas isso não me para. Na verdade, ouço com frequência homens camionistas a dizer que devia haver mais mulheres na profissão, para haver mais diversidade.”

“Sem dúvida que há cada vez mais mulheres camionistas,” afirma a Oti, “embora seja difícil encontrá-las na estrada exatamente porque a percentagem ainda é pequena. Quando paro para almoçar, normalmente, ficou numa sala cheia de homens. Por vezes, sinto-me uma pequena formiga a comer sozinha, porque sou a única mulher.”
 

Mulheres camionistas nas redes sociais

No entanto, com o crescente número de mulheres a assumir esta profissão, a curiosidade é saber o que é que as incentiva a fazê-lo? No que toca à Sandrine, poderá ser apenas o poder, por exemplo: “As mulheres camionistas costumavam ser raras, porém, atualmente, quer na TV, em revistas quer nas redes sociais estão cada vez mais visíveis e esse facto contribui para a normalização da presença de mulheres no setor. Demonstra que todos podem fazer o mesmo.”

Programas de televisão como “Trucker Babes”, um programa alemão que foi adaptado em vários países, ou a série televisiva colombiana “Los Briseño” (“A Estrada para o Amor” é o título adaptado) sobre uma jovem mulher que enfrenta os preconceitos da família para se tornar camionista, estão a apresentar ao público mulheres camionistas como nunca antes foi feito. Além disso, as redes sociais desempenham o seu papel.

A Oti sabe alguma coisa sobre o assunto: “Há vários anos que partilho as minhas experiências como camionista no Facebook e Instagram. Atualmente, tenho alguns seguidores, embora tenha começado por publicar uma entrevista que dei a uma revista do setor. Depois, partilhei aspetos da minha rotina diária na estrada e pegou. Criei também um grupo de apoio no WhatsApp com colegas mulheres que se tornaram amigas. No início, não conhecia mais nenhuma mulher, porque não nos cruzamos necessariamente com elas na estrada. Graças às redes sociais, há mais formas de estarmos em contacto. Muitas mulheres escrevem-me a dizer que sempre se sentiram atraídas pela camionagem, mas estão hesitantes. Penso que a razão de haver tão poucas mulheres deve-se ao facto de não perceberem que podem fazê-lo. Muitas mulheres não se atrevem a dar esse passo.”
 

O nosso conselho: apostem!

“É claro que, por vezes, em termos de força física temos alguma desvantagem relativamente aos homens” afirma a Sandrine. “Mas, por outro lado, o nosso estilo de condução e a forma como manuseamos as mercadorias são menos bruscos, isto é, somos mais cuidadosas. Frequentemente, temos uma melhor interação com os clientes, o nosso estilo é pura e simplesmente diferente.”

“Além disso, trata-se de uma questão de confiança mais do que de capacidades físicas,” acrescenta Oti. “Tenho 1,60 m; por isso, se consigo fazê-lo, qualquer pessoa consegue! Para se assumir esta função é preciso ter vocação. Se tiver algum conselho a dar às mulheres que pretendem ser camionistas, diria apenas: “sigam a vossa paixão”. Se a condução de camiões não for a vossa verdadeira vocação, a função acabará por ser mais difícil. Passam muito tempo na estrada e pouco tempo em casa. Mas se tiverem paixão por camiões e este for efetivamente a vossa paixão, apostem! Podem fazê-lo como qualquer outra pessoa.”
 

* Entrevista a Oti Cabadas também conhecida por Coco Trucker, a 11 de maio de 2021.
** Entrevista a Sandrine Son, a 27 de abril de 2021.

 

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Mad Max: Fury Road - Official Main Trailer [HD]

Antes dos programas de TV como “Trucker Babes” na Alemanha e “Los Briseño” na Colômbia, as mulheres camionistas foram protagonistas de um número reduzido de livros e filmes. Por exemplo, no filme de 1974 “Trucker’s Woman” de Will Zens – cujo título original era “Truckin’ Man”, o seu título foi alterado pelo distribuidor com o intuito de aumentar a venda de bilhetes. Na maioria das vezes, as mulheres camionistas são representadas por personagens destemidas e simples como Furiosa em “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), Jill no filme de culto de Terry Gilliam “Brazil: O Outro Lado do Sonho” em 1985 ou as duas heroínas do filme de série B de 1979 “Flatbed Annie & Sweetiepie: Lady Truckers”.

Na maioria das vezes, as mulheres camionistas são representadas por personagens destemidas e diretas.

 

Na literatura, o primeiro relato na primeira pessoa como mulher camionista foi publicado em 2009 por Rebby Barnard sob o título “Confessions of a Female Truck Driver”, obra em que fala sobre conhecer-se a si mesma e ao mundo. O tema do sexismo está no cerne do livro “Silly Woman, Big Rigs are for Men” de Mary Ellen Dempsey, publicado em 2011. Conta as aventuras de uma mãe solteira que escolhe ser mulher camionista na década de 60 para sustentar a sua família. O romance francês “Le camion de la fille” de Louise Méheut (2020) aborda o mesmo tema, embora num contexto contemporâneo ao acompanhar a viagem de uma mulher camionista que decide enfrentar a discriminação no mundo do transporte em tribunal.

Trucker Babe Jana auf Abwegen | Trucker Babes | Kabel Eins

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